A programação é digna de um centro cultural de uma grande metrópole; o mobiliário, novo como o de um museu privado; as linhas modernistas do edifício, preservadas como patrimônio cultural estadual. Esta é a situação atual da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), que passou por uma grande reformulação nos últimos anos, mantendo e ampliando o importante papel que tem na formação cultural do estado. Exemplo disso é a segunda edição da Festa Literária da Biblioteca (Flibi), que ocorre entre os dias 22 e 27 de outubro, com uma série de palestras, bate-papos, oficinas e atividades para o público de todas as idades.

O evento, que terá a participação de cerca de 60 convidados, entre prosadores, poetas, historiadores, músicos, jornalistas e artistas de vários naipes, vai homenagear o escritor curitibano Jamil Snege (1939-2003) e marca a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, que até a Flibi era uma data quase em branco na capital paranaense. Aliás, dar mais cor e vida ao cenário cultural local foi uma das conquistas recentes da BPP.

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O projeto de reformulação teve início em 2011, quando Rogério Pereira, editor do jornal literário Rascunho, assumiu a direção da instituição. Com experiência em eventos na área, reativou o projeto “Um escritor na biblioteca”, promovido pela BPP na década de 1980. No novo formato, encontros quase mensais garantiram a interação entre o público e autores reconhecidos nacionalmente: Milton Hatoum, Sérgio Sant’Anna, Elvira Vigna, Rubens Figueiredo, Ignácio de Loyola Brandão, Bernardo Carvalho, Luci Collin, Ruy Castro e Cristovão Tezza, para citar uma pequena seleção entre tantas estrelas.

Também em 2011 a BPP investiu na publicação mensal do jornal Cândido, com tiragem atual de 10 mil exemplares – parte destinada a bibliotecas e escolas públicas do estado, bem como ao projeto de remição da pena em presídios por meio da leitura. Em parceria com a Secretaria da Cultura, edita ainda a revista cultural Helena, com tiragem trimestral. Em 2012, a BPP lançou o Prêmio Paraná de Literatura, que se transformou em um dos maiores do Brasil. A atual edição, de 2018, recebeu 1.852 livros inéditos de autores de todo país. O resultado, que garante um prêmio de R$ 30 mil e a publicação da obra pelo selo Biblioteca do Paraná, será divulgado em dezembro.

Os sobressaltos, claro, existiram. Entre 2014 e 2016, vários eventos foram suspensos, em função da grave crise econômica que afetou todo o Brasil. Em 2015, por exemplo, não houve nenhuma edição de “Um escritor na biblioteca”, tampouco a premiação de literatura. Mesmo antes disso, alguns projetos pouco avançaram, como as primeiras tentativas de pintar a área externa da biblioteca. Pereira conta que por várias vezes pensou em largar o cargo, desanimado com a burocracia do serviço público e a demora dos processos, muito mais lentos do que na iniciativa privada. Mas o plano de reformulação da biblioteca foi mantido e executado.

O status da BPP ajudou: órgão de regime especial, buscou patrocínios e firmou convênios quando as licitações públicas não prosperaram – com todas as contas avaliadas como regulares pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Ainda em 2013, um projeto da Associação dos Amigos da Biblioteca aprovado pela Lei Rouanet conseguiu recursos da Renault, Copel e Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) para a abertura da primeira sucursal da BPP, na cidade portuária. Batizada de Biblioteca Mário Lobo, a sucursal também promoveu encontros com autores e programação cultural no prédio histórico que abrigava a Santa Casa de Paranaguá. Atualmente, o espaço está sendo revitalizado, e o empréstimo de livros ocorre na Casa Brasílio Itiberê. A BPP coordena também o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais, prestando assessoria técnica e ajudando na promoção de atividades culturais.

Em 2015, com apoio das Tintas Coral, Compagas e Sanepar, foi finalmente concluída a pintura externa da BPP. A reformulação interna, apresentada em 2012 com projeto do arquiteto Manoel Coelho, demorou anos para avançar por conta do contingenciamento de despesas. A primeira etapa foi entregue somente em 2017, após o Instituto Renault viabilizar os recursos. No total, a montadora contribuirá com R$ 6,8 milhões ao término da terceira etapa, que está em fase de conclusão. A consolidação da Associação dos Amigos da Biblioteca permite e facilita a obtenção de recursos dessa forma.

Em agosto passado, foi aberto o café no interior da biblioteca, espaço cuja licitação foi vencida pela Arte & Letra, livraria-cafeteria com loja própria no bairro Batel. A intenção é atrair mais público e oferecer serviços para que as pessoas permaneçam por mais tempo no local. “Quando a gente falava em abrir um café, lá em 2012, as pessoas não botavam fé. Tudo bem, demorou anos para que saísse, mas está lá. Acho que poderíamos ter feito muito mais em menos tempo, como o café. Mas dentro de uma estrutura gigantesca do estado, sabendo que você é uma instituição pequena, acho que conseguimos muitas coisas”, reflete Pereira.

Área infantil

Entre essas muitas coisas conquistadas, uma das mais notáveis é a área infantil: para quem a frequentava quando criança, é uma grande satisfação levar os filhos para lá e encontrar um espaço moderno, confortável e repleto de atividades para os pequenos. Essas novidades foram entregues ainda em 2017, na conclusão da primeira etapa da reformulação. Mas continuam impressionando o público. Há poucos meses, a relações públicas Roberta Bernine, 38 anos, tem frequentado o local aos sábados com o marido, o fotógrafo Theo Marques, 42, e o filho, Vicente, de 8 anos.

“Começamos a frequentar a biblioteca novamente porque Vicente está lendo rápido demais. A gente compra um livro e no mesmo dia ele já acaba. A saída era ir para uma biblioteca. Theo e eu frequentamos muito a Biblioteca Pública na infância e adolescência. Não sabíamos que ela estava reformada, foi uma surpresa para mim encontrar um lugar tão bonito, aconchegante”, contou Roberta. Ela destaca a animação que encontra no espaço aos sábados de manhã, com muitas crianças e atividades.

A balconista Cristine Santana Pereira, de 29 anos, que trabalha em uma padaria na Barreirinha, diz que há opções mais próximas para emprestar livros para a filha, Mikaelly, de 9 anos, como o Farol do Saber. Mas ela prefere pegar ônibus e ir até ao Centro para levá-la à BPP. “Faz uns quatro anos que a gente sempre vem para cá, nos dias que tenho folga. Ficou bem melhor do jeito que está, e é um espaço muito bom, tem mais variedade de livros e atividade, não é só para emprestar livro. Eu até estou com o cadastro desatualizado, nem vou conseguir levar para casa, mas vale a pena para ler o livro aqui mesmo”, relatou em uma terça-feira chuvosa de Curitiba.

As crianças são privilegiadas em outros projetos da BPP. Há hora do conto, cursos de teatro, coral, piquenique literário em parques da cidade e também a concorrida Noite na Biblioteca, evento especial no qual as crianças inscritas ficam desde o fim da tarde até o café da manhã no espaço infantil, acompanhadas de cerca de 50 monitores. Praticamente todos os dias há visita de escolas. “Um projeto foi puxando o outro, e isso envolve e engaja as pessoas, os funcionários. É preciso confiar na equipe, há muita coisa para resolver. Os problemas do dia a dia são muitos, temos esse entorno, com os problemas da área central. Mas a gente tem mais de 200 crianças por dia nos visitando. É como uma pequena cidade para ser administrada”, relata Pereira. Para as crianças carentes, a instituição promove ainda o Cine Pipoca, com filmes infantis e um pacote do milho estourado, tudo isso em um auditório moderno e confortável, no qual são realizadas também as palestras, encontros com autores, lançamento de livros, apresentações variadas.

Tecnologias

A BPP ainda precisa investir em novas tecnologias, mas já tem uma boa infraestrutura. Poltronas e televisores individuais garantem conforto para assistir conteúdo audiovisual. O wi-fi atrai pessoas que querem usar o notebook, independentemente do contato com livros ou outros acervos. O engenheiro Cristiano Flamarion, 42 anos, é um deles. Aproveita o espaço para estudar no próprio computador, dividindo poltronas ou mesas com quem prefere consultar os jornais e revistas impressas.

Para quem não tem um notebook, há computadores espalhados pelas várias salas. Dois deles substituíram o velho arquivo, com as fichas catalográficas de todo o acervo. “Alguns funcionários tinham apego, mas não fazia mais sentido manter aquelas fichas atualizadas, sendo que a consulta pela internet é rápida, fácil e conta com a ajuda dos funcionários”, diz Pereira. As fichas agora serão peça de museu: uma ala vai manter intacto o patrimônio histórico da BPP, assim como fazer mostras dos livros raros sob sua guarda.

Desafios

O arquiteto Manoel Coelho, responsável pelo projeto de reformulação, se diz pessoalmente satisfeito em trabalhar com a BPP, local muito frequentado por ele – e milhares de curitibanos – na época dos trabalhos de escola e da faculdade. “A BPP é uma obra que faz parte dos edifícios tombados em Curitiba, da arquitetura modernista. Apesar de ter vários prédios ao seu redor, mantém uma presença muito forte no coração da cidade. A atual direção teve uma ideia brilhante, porque com o tempo o prédio ficou defasado, e as bibliotecas do mundo inteiro tiveram que encarar o desafio de deixar de ser uma simples coleção de livros e periódicos”, observa.

Para Coelho, é gratificante ver o número de frequentadores aumentar. “Hoje em dia as pessoas estão mais dispersas, ou passam muito tempo na internet, e é impressionante que uma biblioteca consiga atrair tanta gente. Apesar de tantos vaticínios do fim do livro, ele está aí, e a biblioteca é uma prova viva de que é possível se atualizar e ter um novo papel no mundo”, acrescenta.

Pereira, nas palestras que dá sobre leitura e livros, volta e meia escuta que bibliotecas são, em geral, muito chatas: “Então passo meu cartão, falo para ir na BPP, das 8h30 às 20h, ou aos sábados, das 8h30 às 13h, para ver o quanto de coisa tem para fazer lá, e ver se vai achar chato tudo aquilo”. Nas viagens que faz pelo Brasil e exterior, o diretor da BPP diz encontrar vários espaços dignos de pena. “São espaços que reforçam o estigma de que uma biblioteca serve apenas para emprestar livros, fazer trabalho escolar. Tudo bem. Nós aqui continuamos fazendo isso com louvor, muita qualidade, mas além disso há muitas outras possibilidades”, avalia

Uma pequena mostra do que a Biblioteca Pública do Paraná oferece ao longo do ano poderá ser conferido durante a Flibi. “É uma celebração de tudo o que a biblioteca representa. Dentro da Flibi vai ter quase tudo que temos no ano: bate-papo, oficina, atividade para crianças, show, sessão de cinema, exposição. Ou seja, um resumo do que a gente acredita que é a função da biblioteca. Reforça a BPP como instituição e funciona como um belo cartão de visitas. Todos os autores que vêm, conhecem a cidade, vão embora, e levam consigo a experiência que tiveram em Curitiba”, comemora Rogério Pereira.