Curitiba foi a primeira cidade do Brasil, e por muitos anos a única, a ter um espaço cultural dedicado à memória das vítimas do holocausto, na Segunda Guerra Mundial. É o Museu do Holocausto, um espaço interativo, que conta a história da guerra através da história das vítimas e dos sobreviventes do regime nazista.

O local fica dentro do complexo do Centro Israelita do Paraná, que engloba a sinagoga e a Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann, entre outras instalações. Apesar de tão ligada à comunidade judaica da cidade, a instituição não se reserva a falar de uma das maiores tragédias da humanidade somente do ponto de vista dos judeus. As vítimas perseguidas por raça, ideologia e oposição ao nazismo também são lembradas. Segundo Carlos Reiss, coordenador geral do museu e especialista na história da Shoá (palavra hebraica para se referir ao holocausto), essa é uma das principais diferenças entre o Museu do Holocausto curitibano e o Memorial da Imigração Judaica.

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Ao entrar no museu, nos deparamos com um jardim externo de chão de pedras e tábuas de madeira envelhecidas, lembrando os trilhos dos trens que levaram as vítimas da Shoá para os campos de concentração. No lado de dentro, o clima propositalmente frio e escuro combina com o chão acizentado de cimento. Tudo remete ao desconforto que os visitantes naturalmente irão sentir ao descobrir mais sobre um tema tão pesado e ao mesmo tempo tratado com delicadeza. No Museu do Holocausto, você não encontrará fotos trágicas e chocantes ou registros da brutalidade nazista, mas sim personagens e memórias. Tanto que já no início do passeio todos recebem uma espécie de caderneta que conta a história de um sobrevivente diferente, com páginas que devem ser viradas a cada etapa da visita guiada, personificando assim a narrativa e dando outra dimensão para a aula de história que acompanharão.

O museu foi inaugurado em 2011 e continua sendo o único desse formato que aborda o tema dessa forma no Brasil. Conta com exposição permanente com 56 objetos e aproximadamente 300 fotos e vídeos, que correspondem a somente cerca de 5% de todo o acervo. O departamento museológico recebe doações de fotos, documentos, passaportes e objetos relacionados as vítimas e ao período histórico do Holocausto. O acervo completo pode ser visto em computadores no final da visita e em exposições temporárias e itinerantes. Além disso, também promovem cursos de capacitação e ensino sobre a história do holocausto para profissionais de todo o país.

Educação e memória

O foco principal do local é receber turmas de escolas e estudantes. Segundo o coordenação-geral do museu, são aproximadamente 600 alunos por semana, e a agenda costuma ser fechada com meses de antecedência, chegando a criar uma fila de espera devido a capacidade limitada do local de atender somente um grupo por vez. As visitas guiadas duram em torno de uma hora e quarenta minutos.

Por se o único museu com foco na história do holocausto no Brasil, recebe muitos visitantes e escolas de outros estados, principalmente os mais próximos como Santa Catarina e São Paulo, mas já chegou a recepcionar escolas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais.

De segunda a sexta-feira, todas as visitas são reservadas para grupos escolares. Na quinta-feira e no sábado o museu não abre, e no domingo recebe todo tipo de visitantes, desde que com visita agendada previamente. Todo o tipo de visitas são gratuitas e precisam ser agendadas com antecedência de pelo menos um dia pelo site www.museudoholocausto.org.br.

Em São Paulo 

A cidade de São Paulo ganhou em novembro de 2017 sua primeira exposição permanente dedicada ao holocausto judeu, somente a segunda em todo o país. O Memorial da Imigração Judaica, que abriga a primeira sinagoga do estado de São Paulo, agora tem um andar inteiramente dedicado a esse episódio histórico e passará a se chamar Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto. Reiss, ele próprio neto de quatro sobreviventes do holocausto, explica que o memorial paulista é mais uma homenagem às vítimas judias enquanto o museu curitibano engloba todos os afetados pela tragédia e tem inclinação didática. “O objetivo principal do nosso museu é ajudar na construção de uma memória coletiva do holocausto, para que a gente aprenda e veja a relação do que aconteceu com outros tipos de genocídios que vieram depois, e principalmente com as coisas que acontecem hoje em dia”, explica.