Difícil pensar que haja algum pai ou mãe por aí que não esteja familiarizado com o universo da pequena garota latina, de cabelo curto, franjinha, camiseta rosa e shorts vermelhos, com um macaco de botas a tiracolo. Sua curiosidade insaciável, domada apenas por um ilimitado didatismo, contaminou toda uma geração de crianças do mundo todo. Era apenas uma questão de tempo até que Dora, a Aventureira, sucesso da Nickelodeon, chegasse às telas de cinema. Por sorte, quem assumiu a bronca foram o diretor James Bobin e o roteirista Nicholas Stoller. O bom resultado, Dora e a Cidade Perdida, chega aos cinemas brasileiros na próxima semana.

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Revelados pela série Flight of the Conchords (disponível no catálogo do HBO Go) – que também ajudou a colocar no mapa Brett Mackenzie, Jermaine Clement e Taika Waititi, integrantes da trupe neozelandesa de Hollywood – Bobin e Stoller já haviam resgatado uma outra propriedade importante para a cultura pop e dado um tratamento cinematográfico digno. Com Os Muppets (2011) a dupla reapresentou os bonecos de Jim Henson para uma nova geração, resgatando todo o potencial de encantamento de personagens como Caco, o Sapo, e Miss Piggy. A continuação, Muppets 2: Procurados e Armados, não possui a mesma graça, mas tem seus bons momentos. Depois disso eles se separaram, assumindo projetos grandes e sem tanta personalidade. Dora e a Cidade Perdida marca o reencontro e o público só ganhou com isso.

No filme, Dora, vivida por Isabela Moner, agora tem 16 anos e vai precisar navegar por duas selvas completamente diversas. Seu otimismo é testado tanto enquanto atravessa os brutais corredores de uma escola de ensino médio nos EUA quanto nas selvas amazônicas tentando reencontrar seus pais, arqueólogos perdidos em uma exploração. É na segunda metade do filme, no meio da floresta, que a graça se estabelece. Bobin imprime o ritmo dos melhores momentos de um Indiana Jones, com templos místicos misteriosos e desafios de inteligência que só podem ser resolvidos pela combinação específica de conhecimentos do grupo de amigos de Dora, o que soa agradavelmente como um eco de Os Goonies. Está lá também aquele delicioso visual de um Pequenos Espiões, que pode até envelhecer mal, mas por enquanto é um deleite de cores e formas para os olhos – o que, claro, é uma piscada de olho para a forma como a série de animação original usava cores primárias para segurar a atenção do público infantil.

Características originais

A atualização de Bobin não descarta o deslocamento de Dora e seu otimismo inabalável em relação ao cinismo do mundo adolescente. Ao contrário, o abraça! Não há adversidade para a qual a protagonista não tenha uma resposta, uma solução ou uma canção, para o desespero de seus colegas. Essa é uma característica da série, voltada para crianças mais novas, afinal, que uma equipe menos criativa facilmente descartaria, transformando Dora em uma Lara Croft latina. Nas mãos de Bobin e Stoller, porém, o que se apresenta é justamente o embate entre a apatia da juventude contemporânea, mais preocupada com seu status social do que em realizar qualquer atividade que lhes despertem paixão.

Dora, ao contrário, é pura paixão, devotada ao ideal elevado do conhecimento científico, valor social cada vez mais vilipendiado por nossa sociedade. Algo que herdou e aprendeu com seus pais, antropólogos exploradores vividos por Eva Longoria e Michael Peña, ambos com bastante desenvoltura e leveza, especialmente para papéis secundários – com destaque especial para Peña, que rouba cada cena em que está presente. A busca de seus pais por Parapata, uma cidade perdida da civilização Inca é o que desencadeia os eventos do filme. O casal se perde e um grupo de caçadores de tesouros mercenários sequestram Dora pensando assim conseguir chegar ao lugar e conquistar o ouro perdido. Entre os bandidos, como não poderia deixar de ser, está lá o Raposo, com sua máscara e luvas.

A presença do Raposo, em toda sua glória cleptomaníaca, é mais um dos acenos que Bobin e Stoller fazem para a série Dora, a Aventureira. Há uma escolha criteriosa e muito acertada em relação a como lidar com as características inerentes da animação, especialmente ao que deve ser mantido e o que deve ser descartado. Nesse sentido, a sequência de abertura é exemplar. No preambulo, Dora e Diego – seu primo tirado da série derivada Go, Diego! Go!, também da Nickelodeon –, ainda crianças, se preparam para viver uma aventura como a da série. O macaco, mochila e mapa falantes, elementos centrais do universo animado, seriam parte da fértil imaginação da criança. O mesmo vale para sua insistência em perguntar para uma câmera imaginária, quebrando a quarta parede, se as pessoas conseguem pronunciar determinadas palavras (rendendo a melhor piada do filme).

O que resiste na transição da série para o cinema é Dora e toda sua potência. O filme parece sugerir que se a selva, com seus perigos, não engole a jovem por ser, ela própria, uma força da natureza. O cinismo dos adolescentes na escola não é diferente daquele expresso pelos mercenários, que desprezam o valor histórico-cultural de uma expedição antropológica e só se interessam pelos artefatos se puderem se traduzir em dinheiro. A falta de conhecimento e curiosidade científica será sua ruína. Não é muito diferente de como os roteiros dos Indiana Jones resolvem os problemas, com a ressalva de que os pais de Dora não expressam o desejo colonialista de levar qualquer artefato para museus nos EUA e Europa.

O otimismo de Dora é uma característica que interessa a Bobin e Stoller. Em Os Muppets temos um casal humano e um jovem fantoche que farão de tudo para reunir a trupe em um grande espetáculo. No exercício de alteridade, de ajudar ao próximo, está o mergulho e descoberta de sua própria identidade e valor. A jornada de Dora é semelhante, ainda que oposta. Ela descobre o valor do próximo ao mergulhar em si mesma e reconhecer suas limitações. Ainda que inocente e idealista, é uma resposta possível e talvez necessária ao individualismo radical que domina o ocidente nas últimas décadas. Há esperança para uma geração que cresce vendo Dora se aventurar pela selva.