A morte prematura de Henfil, nos primeiros dias de janeiro de 1988, fez com que sua sombra sobre a cultura fosse aos poucos esvaecendo. Nomes como Ziraldo e Jaguar, ou mesmo o do também já falecido Millôr (1923-2012), seus colegas no mítico jornal satírico O Pasquim, seguem influentes nas discussões sobre política, cultura e sociedade. De certa forma isso é parte de um marco geracional. Nos anos 90 não havia casa de família de classe média sem um exemplar de Henfil na China Antes da Coca-Cola (Record, 1980), ou curso de jornalismo que não discutisse sua contribuição e afiliação estética. Hoje o cenário é outro. Para evitar este desaparecimento completo que Henfil (2018), documentário de Angela Zoe, chegou aos cinemas nesta semana.

A ideia surgiu de Marcos de Souza, filho do músico Chico Mário, em conversa com Zoe após o sucesso do documentário Betinho, a Esperança Equilibrista (2015), de Victor Lopes – Henfil, Betinho e Chico Mário são irmãos, todos marcados pela chaga da hemofilia, doença que impede a coagulação do sangue causando uma série de complicações. Perguntada pelo sobrinho de Henfil sobre a possibilidade de um filme sobre o tio, a documentarista começou a "pensar em como não contar a vida do Henfil de uma forma careta, pois ele era muito divertido e livre", segundo depoimento presente no material de divulgação do filme.

A questão central é, então, como alcançar alguém como Henfil. Como representar seu gênio, sua personalidade, manifestadas em sua extensa e multifacetada obra, mas que não dão conta de sua identidade. "O Henfil não cabe num filme só", crava Angela, em entrevista por telefone à Gazeta do Povo. "Quando eu me toquei de fazer o Henfil eu falei: cara, não faz sentido eu contar uma história do Henfil. O Henfil, quem quiser que veja na Wikipedia, entendeu? Porque o que me interessava era a potência, era o gênio criativo, a inquietação", diz.

Artistas, designers e animadores participaram de uma espécie de reality show para redescobrir a obra de Henfil.

A solução foi, então, abraçar uma abordagem dialética. Zoe parte das imagens do próprio Henfil, tanto de seus cartuns, quadrinhos e textos, quanto dos programas de entrevista e filmes em Super 8 e vídeo. Na outra ponta está um grupo de jovens artistas, designers e animadores, em uma espécie de reality show, com a missão de descobrir a obra de Henfil e produzir uma animação usando seus personagens clássicos, como Graúna, Cabôco Mamadô ou Os Fradinhos. O produto acabado aparece como os créditos finais do filme. Mediando estes dois pólos – não necessariamente opositores – estão alguns dos artistas que estiveram junto n'O Pasquim, como Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral e Tárik de Souza.

Conflito de gerações

Henfil, o filme, é o resultado desta série de confrontos. O que é adequado, no limite em que confronto e provocação são duas de suas mais poderosas armas. Descobrimos um Henfil que é uma obra de si mesmo. Tão criador quanto criatura em constante performance. Henfil – Henrique de Souza Filho –, ainda que apareça no documentário como o que foi de fato (filho, repórter, doente crônico, pai, irmão, cartunista ou integrante do grupo d´O Pasquim), é tão fruto de suas próprias obsessões quanto os já mencionados Graúna, Cabôco Mamadô ou Os Fradinhos. Ao evitar o didatismo da abordagem linear, Zoe faz um filme que revela mais sobre seu objeto do que um documentário clássico, "do berço ao túmulo", como ela gosta de dizer, jamais poderia.

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O confronto de gerações que está presente como dispositivo central do filme é a questão de partida para Zoe. "A história surge porque eu comecei a perceber que a nova geração não tinha noção de quem era o Henfil. Se a gente não fizesse uma coisa logo o Henfil talvez pulasse uma relação", revela. Foi então que começou a se questionar sobre qual seria a melhor forma de unir estes dois pólos. "Qual a relação entre as duas gerações. É o humor? Não, é diferente? É os quadrinhos? Não, a galera não consome mais tanto quadrinho. Que tal pegar os personagens e fazer uma animação?", questiona.

O grupo de jovens artistas começa então a fazer uma investigação que é tanto afetiva, quanto histórica e estética. O estilo de humor de Henfil, sempre questionador, irreverente e sem concessões, unido ao traço selvagem, intrigam e encantam as novas gerações. Enquanto isso testemunhamos parte do que eles estão vendo, seja no depoimento dos ex-colegas de Henfil, seja em suas aparições. "Quando a gente propôs esse reality e os meninos toparam, e com a curiosidade deles em relação ao Henfil, eu conheci esse Henfil que eles descobriram, e o Henfil dos acervos. Quando eu junto isso tudo num documentário eu percebo que ele, hoje, estaria viralizando. Ele estaria fazendo coisas. Seria um crítico, um cara de esquerda".

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Fechando o ciclo do embate geracional, está a própria forma de se experimentar o documentário. "Quando você chega nos cinemas, em alguns lugares, a gente fez uma experiência de realidade virtual. Antes de entrar no filme você entra em um ambiente de realidade virtual. Então o que acontece: o pai que leva o filho se encanta com a tecnologia. E o filho se encanta com o filme, com o personagem", completa Angela.

Pioneiro em multimídia

A noção de "artista multimídia" parece ubíqua hoje em dia. Inescapável, até. O trânsito entre mídias, formatos e plataformas, adequando e reconfigurando o conteúdo, parece inerente ao universo cultural contemporâneo. Henfil era assim antes disso ser uma questão. Não havia nada que saísse dele que não envolvesse uma dura reflexão sobre como o mundo a sua volta se configurava. Prova disso é o livro que compila as singelas cartas enviadas para sua mãe, Cartas da Mãe (Record, 1986), ou seu quadro fixo na TV Mulher, a TV Homem, que aparecem também no documentário.

Henfil com a mãe, Maria da Conceição, cujas cartas por ela enviadas deram origem a um livro.

Essa confluência entre irreverência e gênio, entre crítica e humor, é algo do próprio Brasil, importante de ser lembrado de tempos em tempos. Henfil encarna muito do que o país tem de melhor, como lembra Angela Zoe: "Ele [o filme] não traz um pedaço da história do Brasil. Ele traz uma mentalidade do Brasil. Um jeito do Brasil. O Henfil era um moleque do Brasil. Aliás, é, acho que ninguém ocupou esse lugar ainda".