O poder não comporta vácuo, exigindo que seja rapidamente ocupado. Rainhas do Crime, estreia na direção da até então roteirista Andrea Berloff, se debruça sobre dois espaços que, ao se tornarem vazios, demandam que sejam preenchidos. O mais óbvio, apontado pela premissa, é o das três esposas da máfia irlandesa na Nova York da segunda metade dos anos 1970 que precisam assumir as carreiras criminosas dos maridos quando estes vão presos. O segundo é o descaso do governo nos grandes centros, herança dos governos de Richard Nixon e Gerald Ford, que acuaram o comércio de rua em direção ao crime organizado, buscando proteção contra a criminalidade crescente. Se as instituições não funcionam, alguém irá prover estes serviços.

Berloff – que ganhou notoriedade quando escreveu o bom Straight Outta Compton: A História do N.W.A. (2015), dirigido por F. Gary Gray – recria uma Cozinha do Inferno, reduto irlandês em Nova York, que, mesmo parecendo apenas decorativa na maior parte do tempo, atende ao propósito de demonstrar como operou este descaso. Lixo se acumula em cada esquina, legiões de desempregados vagando pelas ruas, lojas e restaurantes vazios, prostitutas e cafetões se acotovelando nas calçadas. Existe vida, algum glamour até, mas ela agoniza.

A máfia irlandesa, enfraquecida pela incompetência, se interessa apenas em coletar o pagamento do bairro, sem oferecer os serviços de proteção que as gerações anteriores do crime organizado prestavam. Com os maridos presos e precisando de dinheiro para se sustentar, as três donas de casa, Claire, Kathy e Ruby, vividas por Elisabeth Moss, Melissa McCarthy e Tiffany Haddish, respectivamente, veem na ausência de governo e de máfia, uma oportunidade para primeiro sobreviver e depois triunfar.

O contexto é uma desculpa para executar um procedimento que vem se tornando cada vez mais comum: repensar o cinema de gênero através do, bem, gênero. Ou seja, colocar mulheres como protagonistas em tramas tradicionalmente masculinas, como aconteceu com os dois filmes-de-roubo do ano passado, o mediano para ruim Oito Mulheres e um Segredo, de Gary Ross, e o ótimo As Viúvas, de Steve McQueen. Em Rainhas do Crime a “inversão” está em colocar as mulheres no centro da narrativa clássica da escalada de poder (e violência) do crime organizado, trama cinematograficamente eficiente desde o começo do cinema, com Scarface: A Vergonha de uma Nação, de Howard Hawks, na década de 30, até Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese, e além.

Para isso, cada uma das três mulheres encerra em si um estereótipo feminino. Kathy é a dona de casa, mãe de família que nunca precisou trabalhar por ter sido sustentada primeiro pelo pai e depois pelo marido. Claire é a vítima de violência doméstica, que já em sua primeira cena está com o rosto machucado – é ela, também, quem terá o arco de redenção mais interessante. E, por fim, Ruby é a peixe fora d’água por ser negra e casada com um mafioso irlandês – Haddish, destaque do bom elenco, encarna a aura de Pam Grier nos clássicos da Blaxploitation, o cinema negro dos anos 70.

A escalada de poder é também uma jornada interior para essas mulheres, que precisarão aprender quem são para poder seguir em frente. Então, há violência, posto que estamos falando da máfia, mas também há empatia. A proteção que elas oferecem para a comunidade, por exemplo, vai muito além de impedir assaltos, e o filme irá reforçar isso.

A Cozinha

A inversão de gênero busca transcender a mera cosmética, tentando se desvencilhar do resultado de Oito Mulheres e um Segredo e almejando o efeito final de As Viúvas. O roteiro, também de Berloff, adaptado dos quadrinhos publicados pela Vertigo, o selo adulto da DC Comics (a mesma do Batman e do Superman), procura dar algo para o elenco trabalhar. Começando pela dualidade do título original, tanto do filme quanto da novela gráfica. The Kitchen, “A Cozinha”, em inglês, remete diretamente ao bairro, Cozinha do Inferno (Hell’s Kitchen), e também para o “lugar de mulher”. Elas recusam o lugar que lhes é imposto e se tornam rapidamente bem-sucedidas em um negócio no qual seus maridos eram, se tanto, apenas medíocres.

Diversas cenas vão buscar colocar essa dinâmica em prática. Na que talvez seja mais emblemática, ainda que bastante breve, as três se encontram na rua com a esposa do chefe da máfia italiana. Ela é a encarnação de como as mulheres são historicamente retratadas nos filmes deste gênero, figura decorativa só existe para reafirmar a masculinidade de seu marido. Um troféu, se jovem, como Michelle Pfeiffer na refilmagem de Scarface (1983), de Brian de Palma, ou um estorvo, como Diane Keaton em O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola.

Estes bons momentos são raros, porém. Rainhas do Crime é mais uma coleção de cenas estranhas, como a que Ruby ouve de sua mãe que apanhou bastante na infância para lhe tornar mais dura (mesmo que ela só tenha descoberto naquele momento o porquê de ter apanhado), do que qualquer outra coisa. A edição desconjuntada, aliada a uma trilha óbvia – como usar a já batida “This Is a Man's Man's Man's World”, de James Brown, para reforçar que este é um mundo onde tentam triunfar é masculino – dão pouco para o elenco trabalhar.

O trio central, McCharty, Moss e Haddish, ainda tiram leite de pedra, ajudando a manter uma boa parcela da atenção do público enquanto o filme se desenrola. O restante do grupo de atores simplesmente não tem tempo de tela suficiente para demonstrar alguma coisa, mesmo pesos pesados como Margo Martindale, como a sogra de Ruby. Quem, de alguma forma, se salva é Domhnall Gleeson, encarnando um interessante sociopata que se torna o assassino das três mafiosas.

Com o perdão do trocadilho, para coroar, a impressão é que ao longo das mais de uma hora e meia de filme, testemunhamos apenas o preâmbulo de Rainhas do Crime. Quando a sessão chega ao fim parece que a história dessas mulheres está prestes a começar, e não em seu fim. Há uma sensação de vazio e incompletude que é raro sentir mesmo em filmes com premissas e execuções vacilantes como este. Uma pena, considerando que tinha tudo para dar certo.