David Bowie, cuja morte completou dois anos no último dia 10 de janeiro, continua tão relevante hoje quanto em seus vários momentos de pico criativo. Tome por exemplo o impressionante feito da companhia SpaceX, comandada pelo bilionário Elon Musk, que há alguns dias colocou um conversível vermelho rumo a Marte — no banco do motorista, um boneco-astronauta batizado de “Starman”, referência à famosíssima canção de 1972 que (por aqui foi avacalhada como “O Astronauta de Mármore”, em versão cometida pela banda Nenhum de Nós no final da década de 1980). Para completar a missão, o carro está tocando em loop, desde o seu lançamento no espaço, outro clássico de Bowie, “Space Oddity”.

É uma amostra da importância cultural que Bowie ainda mantém. E uma parte essencial da construção da lenda poderá ser vista na mostra de cinema “O Homem que Caiu na Terra”, totalmente dedicada à carreira de Bowie frente às câmeras. De caráter itinerante, e após passagens pelo Rio de Janeiro e Fortaleza, a mostra chega a Curitiba na próxima terça-feira, 20, e fica em cartaz até o dia 28 de fevereiro, na Caixa Cultural. Ao todo serão exibidos 24 filmes, além de duas atividades paralelas que exploram temas relacionados ao universo do músico (leia mais no quadro).

A organização buscou reunir entre longas, médias e curtas as aparições mais significativas de Bowie no cinema. “Achamos que era mais interessante colocar os filmes em que ele tinha um papel e em que interpreta um personagem, porque é esse o foco da mostra: uma visão para o público do Bowie ator”, explica a curadora Roberta Sauerbronn.

É uma seleção abrangente, que traz desde favoritos dos fãs até algumas raridades. No primeiro grupo estão filmes como Labirinto – A Magia do Tempo e a obra que batiza a mostra, O Homem que Caiu na Terra, de Nicholas Roeg. “É o primeiro grande papel de Bowie no cinema”, afirma o crítico Marden Machado. A história traz o músico interpretando um alienígena que vem à Terra em busca de água para salvar o seu planeta natal. “É um filme muito crítico sobre os caminhos da humanidade e como lidamos com fama, dinheiro, poder e celebridade”, avalia Roberta.

A mostra é também uma oportunidade de ver em tela grande filmes como A Última Tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese e no qual Bowie interpreta Pôncio Pilatos; Basquiat, em que ele aparece transfigurado como o artista pop Andy Warhol; e Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer, cultuada piração de David Lynch. Há ainda opções para os mais jovens — além do já citado Labirinto, fábula em que Bowie interpreta o Rei dos Duendes em outra dimensão, serão exibidos Arthur e os Minimoys (uma animação francesa de cunho ecológico dirigida por Luc Besson, na qual Bowie se junta a Madonna e Snoop Dogg no elenco de vozes) e O Segredo de Mr. Rice, em que o músico encarna mais uma criatura mágica.

Quem prefere obscuridades terá a oportunidade de assistir a obras raras e exibidas pela primeira vez no Brasil. É o caso dos curtas The Snowman, The Image, Pierrot in Turquoise or The Looking Glass Murders e Jazzin’ For The Blue Jean (os dois últimos têm como atrativo extra os roteiros, escritos por Bowie). A mostra também traz outras curiosidades que vão alegrar os fãs — uma delas é Empty, que, segundo Roberta, “não é bem um filme, mas parte de uma instalação, que só circulou por museus norte-americanos e nunca foi exibido em cinema ou em televisão”.

Outros destaques são Il Mio West, um faroeste italiano em que Bowie interpreta um vilão, O Último Gigolô, que traz o derradeiro papel de Marlene Dietrich no cinema, e O Pirata da Barba Amarela, em que o cantor contracena com os comediantes do Monty Python e a dupla Cheech & Chong. “É um encontro do humor inglês com o humor americano, um filme muito engraçado e politicamente incorreto até o talo”, diz Roberta.