“15 dias” é uma lei não escrita que vale entre os artistas de circo. Se alguém quer ou precisa abandonar a trupe, o costume manda que o a direção do circo seja avisada do desligamento com duas semanas de antecedência. Afinal, não é fácil achar um mágico ou um atirador de facas da noite para o dia.

O dia da estreia do palhaço Rodrigo Garcia, porém, não foi assim. Rodrigo é um dos destaques do Circo Tihany, que está com sua lona montada na Avenida Victor Ferreira do Amaral, em Curitiba, até o dia 20 agosto. O Tihany, criado em 1954, é um dos três maiores circos do mundo dentre os que reúnem atrações de circo tradicional, como música, palhaços, acrobacias, contorcionismo e ilusionismo e já passou por 18 países.

Voltando à história do palhaço Rodrigo, em 2002, no hoje extinto Circo Garcia, um dos palhaços principais pegou seu nariz vermelho e foi embora sem avisar. No aperto da hora do show, o nome de Rodrigo, o filho do ilusionista Romano, foi sugerido. “Eu nunca me ofereci. Os outros falaram: coloca o Rodrigo que ele dá conta do recado. Eu tinha 20 anos e nunca mais parei e pretendo não parar. Não sei ficar longe disso aqui, disse, enquanto se maquia para entrar em cena. Para Rodrigo, a maquiagem já “é o começo do espetáculo”.

O camarim é aquele dos clichês dos filmes sobre circo, o que se espera de um camarim de palhaço: um pequeno quarto de madeira com um espelho iluminado, maquiagens na penteadeira, os sapatos de bico gigante pelo chão e as roupas de palhaço penduradas na arara.

Ele disse que faz o estilo de palhaço triste ou mal-humorado. “O público que vem me ver já tem as suas tristezas. Meu trabalho é fazer esquecer com alegria”.

Rodrigo é a quinta geração da família Garcia, sobrenome mais importante do circo brasileiro. Durante mais de 75 anos, o Circo Garcia fez história no país até arriar a lona, em 2003. A família materna dele é chilena e também circense.

Apesar de trazer o gene do picadeiro no DNA, Rodrigo diz que cogitou uma outra carreira. “Eu até vivi um tempo na cidade, fiz dois anos de faculdade de veterinária”, conta. A intenção do palhaço era cuidar dos animais do circo, logo depois que as leis ambientais brasileiras proibiram o uso de animais em espetáculos de circo.

O quase-veterinário, aliás, concorda em partes com a legislação. “Animais de pequeno porte que fazem parte de truques de mágica, como coelhos, cães e pombos não são maltratados no circo. Porém, se a lei é assim, precisamos melhorar a nossa arte para suprir esta lacuna”, diz.

Palhaços não tiram férias  

O espetáculo do Tihany que está em cartaz em Curitiba é o AbraKdabra, que mistura música do hall dos cassinos americanos ao circo tradicional. A turnê começou em Las Vegas e passou por países como Paraguai, Uruguai e Argentina antes de retornar ao Brasil. “Na verdade, o circo nunca para”.

Ele explica que alguns artistas tiram férias, algo que nunca fez em 17 anos de carreira. “É uma coisa que me dá muito prazer. Viajar e conhecer o mundo”. Nos dias de folga, Rodrigo gosta de investigar a arquitetura dos centros históricos das cidades. “É o que eu mais gosto de fazer quando chego em uma cidade nova. Dar uma volta e tentar entender como é a cidade”, disse. “Às vezes, as pessoas que já viram o show me reconhecem”.

Além de viajar o mundo, um circo grande como o Tihany é uma comunidade itinerante globalizada. A equipe completa tem 123 pessoas de 25 nacionalidades diferentes envolvidas no espetáculo. “É muito legal saber que você está trabalhando com artistas de todas as partes. Alguns são de família de circo, outras são de primeira geração. Cada um tem sua origem, sua história”.  

Rodrigo conta que aprendeu seu ofício com cada um dos palhaços que viu atuando durante sua vida dentro de circos. Se tivesse um ídolo, seria o comediante americano Jerry Lewis (1926-2017), o “melhor de todos”, em quem inspira sua comédia física.

Para ele, um bom palhaço não pode prescindir de uma qualidade: "comédia é timing, o principal a fazer é contar a piada na hora certa. Isto você só vai aprender com o público, a cada dia”.

Preços e apresentações 

As apresentações do Circo Tihany acontecem de terça à quinta-feira às 20h; sextas e sábados às 16h30 e às 20h; domingos e feriados às 15h e às 18h30. O circo está montado no estacionamento do Pinheirão, na Avenida Victor Ferreira do Amaral. Os preços variam de R$ 50 a R$ 180. Os ingressos estão à venda nas bilheterias do circo de segunda à domingo das 10h até o início do espetáculo. Os ingressos também estarão disponíveis no site do circo e no site Eventin. Assinantes da Gazeta do Povo têm 20% de desconto.