O diretor Damien Chazelle soube escapar de uma tentação tola ao criar o roteiro de seu novo filme, O Primeiro Homem, que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas brasileiros. 

A filme acompanha o astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling, de Blade Runner 2049) entre os anos de 1961, pouco antes de entrar na Nasa, até 1969, quando volta à Terra após ter sido o primeiro homem a pisar no solo da Lua.

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Chazelle poderia ter incorrido em erro, ao retratar Armstrong como um cowboy do espaço, mas não o fez. O protagonista do filme é introvertido, sorumbático, cheio de falhas e humanidades e nem um pouco carismático.

Porém, é muito eficiente, frio e decisivo quando é chamado a cumprir o seu papel de comandar a primeira viagem do homem a Lua.

Com sua fisionomia impassível, Ryan Gosling foi a escolha certa para o papel de Armstrong. O filme se sai bem ao contar não a história da conquista da Lua, mas da pessoa a quem foi confiada esta missão.

Outro mérito do filme é recriar o ambiente analógico, da tecnologia incipiente do auge da disputa pelo território espacial entre as duas forças hegemônicas que dominavam o planeta na guerra fria, os Estados Unidos e a União Soviética.

Porém, mais do que mostrar o antagonismo político das ideologias em conflito, ou cantar a superioridade do homem americano com direito a música ufanista e momentos para chorar, o filme centra sua narrativa nos conflitos pessoas e familiares de Armstrong.

A perda de uma filha com menos de 5 anos não é superada pela família e reforça a introspecção do astronauta e a relação difícil que mantém com a esposa e seus outros dois filhos.

Quanto a reconstituição histórica, o filme é o mais fiel possível a sequência dos fatos pois foi baseado no extenso material autobiográfico deixado por Armstrong. Há uma única licença poética do diretor na cena clímax, da chegada de Armostrong à Lua e paro por aqui para evitar spoiler.

Não é definitivamente um filme para quem ainda desconfia que o homem tenha chegado à Lua, mas sim um roteiro que mostra passo a passo a evolução dos ambiciosos projetos Gemini e Apollo.

A direção de arte e a direção recriam bem o ambiente claustrofóbico, sufocante e silencioso das viagens espaciais. Sem música. Apenas com a respiração e comunicação dos tripulantes e da equipe em terra.

Em O Primeiro Homem, vemos que a conquista do espaço se deu a um preço político alto para o governo americano que em sua obsessão por superar os russos gastou trilhões do contribuinte americano em meio a muitos protestos e uma guerra no sudeste asiático.

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Houve ainda um custo humano terrível, com muitas vidas perdidas. Houve, contudo, um desenvolvimento extraordinário de tecnologias que hoje são de uso comum na sociedade como a internet e os fornos de micro-ondas - para usar só dois exemplos.  

O filme se concentra porém, na jornada pessoal do astronauta com seus fantasmas, ambições e incertezas. Algo que não significa que os momentos históricos mais importantes da história não estejam presentes, pelo contrário, são mostrados com elegância emocional contida.

Como dito inicialmente, o filme sabe escapar da narrativa ufanista e heroica, e constrói um drama familiar e pessoal introspectivo tendo, paradoxalmente, como pano de fundo, a maior e mais impressionante façanha já realizada pela humanidade.