O menino João Carlos Martins já era considerado um prodígio do piano nos anos 1940 – aos 8 anos, já tocava peças de Bach; aos 11, estudava piano por seis horas diárias. Tornou-se conhecido mundialmente, gravou a obra toda de Bach para piano, e coleciona outros feitos semelhantes. Mas dois incidentes – um acidente jogando futebol, em que teve o nervo ulnar atingido e a mão atrofiada; e um assalto sofrido na Bulgária, em que foi golpeado com uma barra de ferro e teve sequelas neurológicas que comprometeram o funcionamento do braço direito – dificultaram (e, por vezes, até o afastaram) do piano. Há alguns anos, por conta das dificuldades físicas, acabou tornando-se maestro.

É essa história que o filme João, o Maestro, que chega aos cinemas curitibanos nesta quinta, 17, conta. “As únicas coisas que pedi para a produção do filme é que ele fosse 100% preciso quanto à parte musical da minha vida, e que tivesse um bom trabalho de sincronia – não gosto de assistir filmes e, quando tem alguém tocando piano, ver que o que o ator está fazendo não condiz com a música”, explica ele, em entrevista ao Guia Gazeta do Povo. Dito e feito – trabalho de sincronia aprovado pelo maestro. Além disso, todas as músicas usadas no longa são gravações do próprio músico tocando.

Já quanto à parte pessoal, ele conta que o diretor, Mauro Lima (de Meu Nome Não é Johnny e Tim Maia) teve certas liberdades – essa parte é apenas baseada na vida no maestro. “Logo que sofri o acidente, tive um período difícil de depressão – no filme, eu apareço bebendo mais também, mas na vida real no máximo tomo um Bloody Mary”, diverte-se o maestro. No papel principal, estão três atores – Davi Campolongo, que interpreta o pianista ainda criança; Rodrigo Pandolfo, que vive o músico em sua juventude; e o curitibano Alexandre Nero, que interpreta o maestro a partir dos seus 35 anos.

Completando o elenco, há outros nomes consagrados, como o de Alinne Moraes (interpretando Carmem, sua atual esposa), Caco Ciocler (como José Kliass, professor de piano) e Fernanda Nobre (cujo papel representa as primeiras esposas de Martins).

História

Em 2009, o The New York Times publicou um artigo sobre o maestro – nele, dizia que a vida do músico “precisava virar filme”. “Até se cogitou a produção de um filme norte-americano, mas nessa mesma época o Bruno Barreto [produtor] viu uma apresentação minha na Sala São Paulo e me disse que esse filme tinha que ser brasileiro, que uma produção de outro país não conseguiria retratar tão bem alguns detalhes, como a vida de um menino brasileiro – em 2015 ele me ligou dizendo que ia rolar”, conta.

A direção ficou por conta de Mauro Lima, que passou um tempo acompanhando o maestro para fazer seu perfil. “Logo ele fez um roteiro e ficou bem preciso – devo ter palpitado em uns 2%. Acho que ele mostrou muito minha obstinação pela música, não foram só os acidentes que me prejudicaram, eu me destruí em busca da perfeição”, diz ele, contando que chegou a tocar 21 notas por segundo.

A estreia

Curitiba foi uma das cidades selecionadas para receber a estreia antes, junto com outras como São Paulo e Rio de Janeiro. “Fiz questão de incluir Curitiba nessa primeira leva pois tenho uma dívida de gratidão muito grande com a cidade – foi a primeira, fora São Paulo, que me chamou para tocar Bach ao piano, quando tinha 14 ou 15 anos, e também a primeira onde me apresentei como maestro”, conta.

E a pergunta que não quer calar, é claro, é: “como é assistir um filme sobre a própria vida?”. “Eu chorei muito por ver e lembrar de tudo pelo que já passei na vida – e aviso para levar um lencinho também, o final é forte”, alerta o maestro.