Para entender a alma de uma cidade é preciso conhecer o chão e o balcão de seus bares fundamentais.

Falo daqueles que a tradição da boêmia carioca consagrou como bar “pé-sujo”. Resumo poético da informalidade e desafetação que tornam estes botecos extensões de nossas casas nas esquinas da urbe.

E o que torna um bar um "pé-sujo"? Há uma série de dados objetivos ajudam a formatar o conceito.  

Bebida boa e barata. Clientes conhecidos pelo nome (ou apelidos) com cadeiras cativas e balcões abertos para a lavagem espiritual via libações alcoólicas.

Conta pontos, claro, quando há um petisco que seja o orgulho da casa, mas nada disso é obrigatório. Nem preocupações com bom atendimento, cardápios engraçadinhos ou outras frescuras. O que torna um bar fundamental é a sua “alma”.  

E a “alma” de um grande bar não se improvisa. Leva anos, gerações e hectolitros de cerveja e aguardente para se conquistar.

Abaixo, sem ordem de importância, cinco autênticos pés-sujos que são fundamentais em Curitba: a cidade sem mar, mas com bar para citar eterno clichê de Paulo Leminski.

A lista não é definitiva. Indique você também o seu pé-sujo preferido e nos conte suas razões:

Bar Makiolka

Bar Makiolka: 85 anos de tradição. Foto: Arquivo Gazeta do Povo.

Os ladrilhos hidráulicos que forram o chão do Bar Makiolka estão lá, usados, encardidos e lindos desde 1932. O boteco é um clássico absoluto da zona norte da cidade. O Makiolka tem o balcão certo, as banquetas apropriadas, a estante bicolor perfeita e a clientela recorrente, mas não hostil a visitantes, como em outras casas da “nossa Curitiba”.

Reza a lenda que nos anos 1990, antes da gourmetização da cerveja, o Makiolka era o recordista de vendas de uma determinada marca no sul do pais, com mais de mil caixas vendidas por mês.

A recente “modernização” da fachada feita por uma marca de cerveja não conspurcou a tradição deste bar, que tem cômodos secretos só para quem é amigo da copa e serve as melhores caldos de mocotó e feijão da cidade. No que toca às bebidas, além de cervejas sempre geladas, a casa oferece batidas – de coco e maracujá, manufaturadas pelo senhor Cláudio Makiolka - que tornam o mundo melhor e dão asas a clientela, como vemos neste video.

Lino’s Bar

Lino: o poderoso chefão do punk rock. Foto: Hugo Harada.

O que resta falar do Lino’s Bar? Velho quartel general da música undergound, palco de acontecimentos mais significativos da música curitibana há 35 anos, ponto de encontro de artistas e núcleo de resistência contra o conservadorismo curitibano. O Linão “velho de guerra” é mais que um bar, é patrimônio imaterial da cidade. Toda a lenda do Lino’s Bar se deve, claro, à postura irreverentemente punk de Antonio José Lino, ex-boina azul da Onu e ex-caixeiro-viajante que toca a casa que leva seu nome há 35 anos. De seu balcão, Lino, aos 80 anos, segue sendo o chefe da “malária”, ou de sua clientela que forma uma verdadeira e esquisita família.

Bar da Dona Inês

Porcão de bucho frito pela Dona Inês. Foto: Leonardo Bessa.

Nomeado de “Super Bom” na pia batismal da Junta Comercial, é sempre o “Bar da Dona Inês” no coração dos fregueses devotos. Trata-se do “pé-sujo” mais aconchegante do centro histórico. Um bar que oferece, além de tudo, respostas: a cerveja mais gelada e barata? O PF mais honesto? Os pasteizinhos mais frescos e gostosos? O melhor pão com pernil? A melhor porção de bucho frito (ou “camarão da montanha”)?  A resposta é sempre a mesma: Bar da Dona Inês. Ela, uma comandante tão eficiente para lidar com a fauna boêmia e suas necessidades, quanto é avessa a entrevistas e badalações. O melhor bar do centro histórico?

O Torto

Museu, boteco e comitê: Magrão comanda o O Torto.

Outra instituição urbana, tombada pela diletância maciça de diferentes gerações de botequeiros. Herdeiro do espaço do antigo “Bar do Peixe”, pé-sujo clássico da rua Paula Gomes, O Torto é muito mais que um boteco da primeira divisão nacional. É um museu dedicado ao maior jogador da história do futebol mundial, Mané Garrincha.

Também é uma produtora cultural independente responsável por shows inesquecíveis como os de Rolando Boldrin e As Galvão. Seu balcão e suas calçadas funcionam como uma espécie de comitê politico permanente para assuntos ligados à liberdade e as garantias individuais e a conservação do centro histórico. Sobretudo, é o palco onde atua o seu proprietário, o ex-bilheteiro, ex-garçom e ex-manobrista e hoje radialista, produtor e empresário, Arlindo Ventura, o Magrão. Não por acaso, O Torto é hoje, o pé sujo mais conhecido da cidade fora de suas fronteiras. Isso sem falar do bolinho de carne...

Boteco São Jorge

Victor Alcantâra na boleia do Boteco São Jorge. Foto: divulgação.

Um bom boteco deve situar-se, de preferência, numa esquina. O São Jorge fica numa – da Mateus Leme com a Lysímaco Ferreira da Costa, no Centro Cívico – mas isso é só uma das qualidades deste bar que funciona no mesmo imóvel desde a década de 1940, com altos e baixos. A grande vantagem do BSJ é a capacidade unir a sua tradição com algumas comodidades que não se confundem com frescuras, algo que o tiraria da categoria desta lista. O São Jorge vende pinga e cervejas boas e baratas, mas tem banheiro feminino e uma tevê com todos os jogos de futebol possíveis. 

A casa é tocada por Victor Alcântara, um santista que trabalhou anos como representante de marcas de cerveja e resolveu passar para trás do balcão em 2012. Vitor é um daqueles donos de bar que já sabem o que e como os seus fregueses gostam de beber e antecipa os seus pedidos. Para coroar, o bar oferece um bolinho de carne que tem seguidores fervorosos, uma receita de família renovada todos os dias por seu Manoel, pai do proprietário.